No palco improvisado no salão de festas, um jovem religioso esconjura o demônio, invoca os poderes do Espírito Santo e pede a Deus a "quebra de todo encantamento, amarração e maldição" que possa estar prejudicando a vida dos presentes. Parece um culto evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus. E algumas coisas nesse ritual católico são de fato muito parecidas com uma reunião evangélica. Outras, no entanto, são bem diferentes. Os fiéis da Igreja Nossa Senhora do Brasil pouco têm em comum com a maior parte do público que lota os galpões da Universal na periferia das cidades, como é atestado pelo figurino predominante nessa cerimônia católica (tailleurs Escada e bolsas Gucci podem ser vistos a distância) e pelas esmeraldas expostas nos dedos erguidos em prece — reluzentes como o sobrenome de suas donas: Simonsen, Vidigal, Cabrera e Papa, entre outros.
A conversão de ricos como Gisela e Roque Savioli
A elite brasileira, autodeclarada apostólica e romana há cinco séculos, sucumbe aos encantos da Renovação Carismática, movimento que pretende "reenergizar" a fé católica por meio do exercício de dons carismáticos como da cura, do milagre e da profecia, e do culto ao Espírito Santo e à Virgem Maria. No Rio de Janeiro, o movimento ganhou a simpatia de socialites do quilate de Carmem Mayrink Veiga e Gisella Amaral. Em Belo Horizonte, Zilda Couto e Ângela Gutierrez, de famílias de empresários da construção, engordam o rebanho dos convertidos. Terço de pérola nas mãos, a nata do PIB brasileiro se rende à gritaria do discurso pentecostal da Renovação, que já pode ser ouvido até na capela do Palácio da Alvorada, residência do presidente Fernando Henrique Cardoso, onde funcionários carismáticos se reúnem todas as terças-feiras para rezar. Só Brasília tem hoje 10.000 fiéis, muitos da elite local. Áurea Caixeta de Oliveira, por exemplo, aderiu ao movimento há dois anos. Seu marido, Joaquim Constantino de Oliveira, é dono da maior frota de ônibus do mundo, com 13% dos 10.800 veículos que circulam em São Paulo. Áurea, de 63 anos, diz que encontrou no movimento forças para enfrentar a solidão que sentiu depois que seus sete filhos cresceram. "Busquei nos carismáticos uma forma de preencher o vazio da casa."
Eis o mistério da fé. Essas fiéis que erguem os braços e imploram pela bênção divina têm dinheiro para pagar qualquer psicanalista do país. São mulheres que poderiam relaxar do stress da vida moderna viajando para um paraíso da Polinésia. Em vez disso, preferem submeter-se ao ritual pacificador do divã religioso. Os pedidos, em voz alta, deixariam escandalizados os representantes da Teologia da Libertação, pelo materialismo que evocam. "Um dia, estava com minha nora grávida, no farol, e surgiram dois ladrões. Rezei para o Espírito Santo e não levaram nem o meu Breitling (relógio avaliado em até 30.000 dólares)", conta a carismática Cristina Simonsen. Carmem Mayrink Veiga é outro exemplo do que as missas da Renovação têm provocado na elite católica. A socialite carioca, que se diz "simpatizante" do movimento, consultou os melhores médicos para descobrir a causa de uma doença na perna. "Depois de distribuir um milheiro de santinhos, consegui levantar-me de meu leito. Foi aí que vi que não basta ter dinheiro, é preciso fé", diz.
Missa na butique — A estrutura do movimento carismático tem por base os grupos de oração. Sessenta mil em todo o Brasil, eles nasceram em São Paulo e rapidamente se espalharam para o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em 1984, já estavam presentes na maioria dos Estados, principalmente os do Nordeste. São formados em sua maioria por mulheres que se reúnem nos salões das igrejas para rezar o terço e ler a Bíblia, sob a orientação de um pároco não necessariamente presente. Nos bairros ricos do país, a rotina é um pouco diferente: cada grupo tem seu padre preferido — e a maior parte dos religiosos aceita de bom grado fazer o que hoje já se tornou uma coqueluche na agenda da elite: as reuniões e missas privées, celebradas nas mansões das carismáticas ou mesmo em suas butiques.
A recém-convertida empresária Gisela Savioli costuma organizar missas no interior da Gioli/Escada, representação da griffe alemã de prêt-à-porter de luxo. Instalada em um prédio pós-moderno em São Paulo, a butique sofre periodicamente uma metamorfose: a sala onde se reúnem as mais abonadas consumidoras da cidade se transforma em igreja. As prateleiras que abrigam tailleurs de até 1.700 reais viram altar. Os cerca de 100 participantes da missa são informados do evento por meio de convites impressos em papel apergaminhado, com a recomendação RSVP (répondez s'il vous plaît). Nas celebrações, os convidados pedem curas e agradecem graças muitas vezes assumidamente práticas, como a que diz ter recebido a empresária e carismática de Curitiba Angela Guerra, mulher do ex-ministro e atual prefeito de Pato Branco (PR), Alceni Guerra: "Estava num vôo turbulento e meu filho não conseguia dormir. Rezei com as mãos sobre a cabeça dele e ele só acordou quando o avião aterrissou".
FONTE: Revista Veja - Edição 1541
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